15 dezembro, 2016

Miguel Urbano Rodrigues - Losurdo e a atualidade da luta de classes

Losurdo e a atualidade da luta de classes

 Miguel Urbano Rodrigues     17.Ene.17     Colaboradores
Uma leitura crítica da recente edição brasileira de «Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica» de Domenico Losurdo. Obra oportuna e actualíssima numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo. A sua leitura abre espaço ao debate e à controvérsia, como é próprio da obra de um verdadeiro marxista.

Dececionado pelo defunto PCI e por Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem Partido dos Comunistas Italianos.
Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos de Marx e Lenin, distancia se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na praxis a opção ideológica.
A editora brasileira Boitempo lançou em 2015 o seu último livro, A Luta de Classes-Uma História Política e Filosófica*.
É um ensaio difícil, árido, por vezes pesado, mas fascinante pela lucidez e criatividade.
O discurso de Losurdo sobre a luta de classes é oportuno e atualíssimo numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo
DO MANIFESTO À ESCRAVATURA
Na introdução, o autor recorda que O Manifesto Comunista logo na abertura afirmava que «A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes». Enunciou uma evidência que a burguesia negava.
Losurdo comenta no Capitulo I o quadro europeu e mundial de exploração do homem que deu origem ao Manifesto Comunista e à reflexão de Marx que desembocou na teoria da luta de classes. O choque entre opressores e oprimidos tornaria inevitável uma luta de classes para a emancipação das vítimas.
A Revolução de1848 contribuiu para que «em vez de se apresentar imediatamente como económica, a luta de classes assumisse as formas politicas mais variadas (revoltas operárias e populares, insurreições nacionais, repressão desencadeada pela reação interna e internacional, recorrendo a instrumentos militares e económicos) em vez de desaparecer tornou-se mais dura».
Da Europa o autor salta para os Estados Unidos. Marx no primeiro livro do Capital qualifica a Guerra de Secessão como «o único acontecimento grandioso da história contemporânea». Somente anos mais tarde, o grande revolucionário compreendeu que a condição dos negros na sociedade norte-americana, dominada por uma oligarquia racista, mudaria muito menos do que ele esperava e desejava.
Meditando sobre o malogro da Revolução de 1848, Marx e Engels não desistem de incentivar o proletariado das potências industrializadas a rebelar-se, sublinhando que na Inglaterra, na França, na Alemanha os operários são afinal «escravos modernos».
Mas não esquecem que há outro tipo de «escravos modernos»: as nações oprimidas por estados poderosos e os povos das colónias africanas e asiáticas. Na Europa citam a Irlanda e a Polónia. A luta pela independência é nelas uma modalidade da luta de classes.
Para Losurdo a Guerra de l914/18 é também expressão da luta de classes, mas em sentido triplo. O conflito, segundo ele, remete para a luta das grandes potências capitalistas pela hegemonia mundial; nas metrópoles a classe dominante reduz a combatividade do proletariado através da prova de força no plano internacional; e, ao ampliar a exploração colonial, transforma a questão nacional numa questão social que configura uma luta de classes.
AVANÇOS E RECUOS DA REVOLUÇÃO
A transição do capitalismo para o socialismo e a extinção gradual do Estado são temas tratados exaustivamente do Capitulo III ao XII, sempre no contexto da luta de classes, exacerbada após a vitória de Outubro de 17.
A Nova Politica Económica – NEP foi criada na URSS após o malogro da política do comunismo de guerra. A fome assolava o país, invadido pelas potências da Entente e devastado pelos exércitos dos generais brancos.
Lenin ao concebê-la sabia que ela ia impor um recuo da Revolução, mas que era indispensável para a salvar. «A classe operaria-escreveu em 1920,ainda durante o comunismo de guerra- detém o poder estatal, mas é obrigada a aguentar grandes sacrifícios, morrer e a passar fome».
O paradoxo, salienta Losurdo, tornou-se mais evidente com a imposição da NEP: «Agora quem vive em condições económicas ostensivamente melhores do que a classe politicamente dominante é uma classe, ou setores de uma classe, que foi derrubada porque era exploradora».
O aparecimento do nepman, rico, corrupto e arrogante, indignava os trabalhadores e suscitou críticas de muitos militantes do Partido que chamavam à NEP a «Nova Extorsão do Proletariado». Destacados dirigentes como Alexandra Kollontai e o seu ex.amante Shlyapnikov aderiram então à chamada Oposição Operária.
Losurdo dedica páginas á formação da consciência de classe. Cita Gramsci mas, atento ao lado positivo do dirigente comunista italiano, não menciona sequer as ambíguas teses gramscianas em que o eurocomunismo, deturpando-as, se inspirou. E invoca opiniões de Mao Tse quando advertiu que a expropriação económica da burguesia não implicara o seu desaparecimento como classe quando o Partido Comunista conquistou o poder.
A Revolução Chinesa merece-lhe alias uma atenção especial. Losurdo esteve próximo do maoismo e isso é percetível na sua obra. No seu livro sobre a luta de classes transparece uma visão quase romântica do rumo que a China tomou apos as grandes reformas de Deng Xiaoping. É inegável que elas foram decisivas para a rápida transformação de um país atrasado, semicolonial, que cresceu num ritmo inédito, e tem hoje a segunda economia do mundo. Não cabe neste artigo uma reflexão mesmo superficial sobre a complexa experiencia chinesa. Mas julgo útil esclarecer que uma académica marxista francesa, Myléne Gaulard, afirma na sua tese de doutoramento, «Marx à Pékin», que a China continua a ser um país capitalista.

A TEMATICA DO NIVELAMENTO UNIVERSAL
No capítulo II Losurdo aborda a temática do «nivelamento universal».
Rebatendo a falsidade da tese de Alexis de Tocqueville – um escritor venerado pela burguesia francesa- no seu livro A Democracia na América, segundo a qual já não existiam praticamente classes sociais na Europa em meados do seculo XIX, o filósofo italiano afirma tratar se um enorme disparate reacionário
Para o liberal francês, principiou desde o seculo X no Ocidente «uma revolução nas condições de vida» dos povos que conduzira progressivamente a um «nivelamento universal». A nobreza recuara na escala social e a plebe avançara. Em breve estariam lado a lado.
Viveu porem o suficiente - faleceu em 1859 - para verificar, consternado, que a revolução industrial inglesa fizera ruir a sua absurda teoria. Tocquevlle aliás reconhecera que o «nivelamento» não impedia a existência de desníveis abissais entre os europeus e os africanos e asiáticos.
Losurdo sublinha que, no seu deslumbramento americano, Tocqueville simula esquecer a existência de milhões de escravos negros na pátria de Washington e Jefferson.
Com o seu desprezo pela «raça amarela» o autor da Democracia na América desconhece também que ainda em 1820 cabiam à China 32% do PIB mundial e à India 15%. O imperialismo britânico arruinou rapidamente os dois países.

O MITO DA PAZ UNIVERSAL DE STUART MILL A ARENDT E HABERMAS
No mesmo capítulo II e no capítulo XI, Losurdo evoca debates sobre o mito da paz universal e comenta posições de Hannah Arendt e de Jurgen Habermas relacionadas com uma imaginária nova ordem mundial que inviabilizaria novas guerras.
Lembra que o liberal Stuart Mill identificara no Imperio Britânico o prólogo a uma futura comunidade universal e à cooperação e à paz entre os povos. Para ele nenhum outro povo encarnava como o britânico a causa da liberdade e da moralidade internacional. E pretende justificar essa monstruosa opinião afirmando que as populações atrasadas têm o maior interesse em se integrarem nesse império para evitar a absorção por qualquer outro estado colonizador.
Conclusão: as guerras seriam em breve uma quase impossibilidade.
Losurdo obviamente ridiculariza e pulveriza o discurso imperialista de Stuart Mill.
Diferentes, mas igualmente aberrantes são as opiniões sobre a transformação do mundo de Arendt e do filósofo Habermas.
A sionista americana qualifica a luta de classes de «pesadelo». Para ela a ciência e a tecnologia estão a contribuir para o advento de uma nova ordem mundial.
A Historia desmente essa esperança. Losurdo cita dois exemplos. A introdução no Sul dos Estados Unidos da máquina de descaroçamento do algodão não afetou minimamente segundo ele o trabalho escravo. Em 1790 o total de escravos não atingia 697 000;em 1861, em vésperas da guerra da Secessão, ultrapassava 4 milhões.
Na India, o governador-geral, em 1864, definia como catástrofe social a introdução da maquinaria algodoeira. Arruinou milhões de tecelões hindus. «Dificilmente uma tal miséria - escreveu – encontra paralelo na história do comércio».
Ao contrapor os benefícios da tecnologia aos males da luta de classes, Arendt esboça um panorama otimista do futuro. O filósofo Habermas considera a luta de classes obsoleta e desnecessária. Segundo ele o estado social apos a II Guerra mundial conduzira a uma pacificação dos trabalhadores, tanto sob governos social-democratas como conservadores.
Essa ingénua convicção carecia de base científica. A brutal ofensiva do neoliberalismo, inspirado nas teses reacionárias do austríaco Friedrich Hayek, destruiu as bases do chamado estado social em toda a Europa.

O POPULISMO E A LUTA DE CLASSES
O último capítulo do livro, o XII, incide sobre «a luta de classes entre o marxismo e o populismo».
O autor cita repetidamente Simone Weil. Para Marx a luta de classes é o motor do processo histórico e social; para Weil «é um momento moralmente privilegiado na história e na vida dos homens». A francesa é uma crítica severa da modernidade, da indústria, das novas tecnologias. O seu populismo tem afinidades com o pacifismo de Gandhi e com ideias do senegalês Senghor e inclusive com o projeto de Proudhon de ajuda aos pobres.
Losurdo acha que o populismo, sobretudo o de esquerda, «estimula uma visão da luta de classes que exclui do seu raio de ação acontecimentos decisivos da história mundial».
Acrescentarei que um destacado populista de esquerda, o talentoso vice presidente da Bolívia Garcia Linera, exibindo uma máscara marxista, tem desempenhado um papel nocivo ao influenciar prestigiados intelectuais progressistas da América Latina.

A EXTINÇÃO DO ESTADO
São poucas as páginas em que Losurdo retoma no seu livro a problemática da extinção do Estado. Não conheço outro pensador comunista que tenha abordado com tamanha coragem e lucidez essa questão fulcral. Repete agora aquilo que noutros ensaios afirmou ao considerar romântica a tese marxiana da extinção gradual do estado. O autor do Capital via como desnecessário o Estado na futura sociedade comunista porque, desaparecidas as classes sociais nas sociedades socialistas adultas, o Estado seria nelas uma instituição supérflua, sem função.
Marx faleceu muito antes de que o rumo da História demonstrasse na primeira sociedade socialista a ingenuidade da teoria marxiana da extinção do Estado. Lenin tinha-a defendido no seu famoso livro O Estado e a Revolução, escrito nas vésperas de Outubro de 17. Mas teve de rever a sua posição. O Estado soviético em vez de caminhar para a extinção fortaleceu-se cada vez mais. Por motivos muito diferentes ocorreram processos similares na China, no Vietnam, em Cuba, nas democracias populares da Europa oriental.
Marx não podia adivinhar as respostas que a História daria à sua ousada previsão. Nem Lenin, nem Mao, nem Fidel e o Che podiam antecipar que o mítico homem novo imaginado por gerações de comunistas tardará muito a surgir. Ora, sem ele a transição do socialismo para o comunismo é impossível. A tendência para reconstituição gradual das classes sociais torna o Estado imprescindível.
***
Uma nota pessoal para findar este texto sobre o importante e polémico livro de Domenico Losurdo sobre a Luta de Classes.
O professor da Universidade de Urbino acumulou uma prodigiosa erudição. A sua cultura, que abarca múltiplos ramos do conhecimento, sobretudo nas áreas da filosofia, da história e da sociologia, contribui paradoxalmente para dificultar a leitura de alguns capítulos. Porquê? Pela rapidez das transposições. Muda inesperadamente de um tema para outro, de um autor para um acontecimento, de um tema económico para um exemplo, da análise de uma crise para uma citação que surpreende, da reflexão sobre as causas da desagregação da URSS para o mito do homem novo.

Losurdo é permanentemente imprevisível. Discordo de algumas posições suas. Mas a discordância não afeta a grande admiração que sinto pela obra e pelo homem.

*Domenico Losurdo, Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica. Editora Boitempo, 391 páginas, São Paulo,2015
Vila Nova de Gaia, Dezembro de 2016

Fonte: http://www.odiario.info/losurdo-e-a-atualidade-da-luta/
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21 julho, 2016

lançamento do novo livro de Domenico Losurdo no Brasil – A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra –


A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra


  
Falo de doutrina, propriamente, pois envolve o corpo teórico e a concepção de mundo que sobre ele se ergue, mais a ideologização que se faz historicamente na aguda polarização entre as duas doutrinas.

Muito especialmente, ele é incansável no combate à doutrina liberal, disseca-a, expõe suas entranhas, evidencia suas falácias e falsificações históricas, com formidável capacidade de travar o combate no plano da luta de ideias. Para ser consequente, ele precisaria sem dúvida ser igualmente implacável com a própria esquerda, em especial com a corrente dominante no século 20, do marxismo e leninismo. Ele o fez reiteradamente, no sentido de desencantá-la de qualquer traço positivista, determinista ou esquemática. Tem a mesma facilidade e rigor nesse plano, oriundo que é de uma apropriação do leninismo altamente politizada e historicizada, própria da capacidade de Gramsci e do velho PCI em criticar a codificação dele feita pela tradição da Terceira Internacional. Losurdo armou, assim, a perspectiva revolucionária marxista nas condições de países ocidentais, com razoável grau de desenvolvimento capitalista e da sociedade civil, ao contrário das condições da velha Rússia quando da revolução em 1917.


É esse estranhamento o tema crítico deste livro. A luta anticapitalista é, ainda hoje, necessariamente, a luta anti-imperialista simultânea. De onde a chamada questão nacional surge como fator destacado todavia hoje na luta dos povos, malgrado a malfadada globalização neoliberal – ou até pour cause -, que supostamente apagaria fronteiras quando jamais se viram tantas fronteiras de classes sociais, de renda, fronteiras físicas e políticas, de poderio militar, como hoje.

Segue abaixo o Prefácio que me foi solicitado pela Fundação Maurício Grabois para a edição brasileira do novo livro de Losurdo:
Não são “(…) insignificantes as distinções no âmbito da esquerda. No que se refere à política internacional, é preciso saber distinguir (…) a esquerda já subordinada a posições neoliberais e a esquerda que, de maneira mais ou menos consequente e mais ou menos lúcida (nos planos político e cultural), está empenhada na d

efesa dos direitos sociais e econômicos. (…) Resta o fato de que, apesar dos sinais de retomada aqui e ali do movimento comunista e, mais em geral, de uma esquerda realmente adversária da ordem existente (…), a esquerda no Ocidente parece caracterizada pela confusão e a dispersão. É uma situação preocupante que não pode ser superada apenas com a denúncia do oportunismo e mediante os apelos ao rigor revolucionário. Há necessidade, em primeiro lugar, de uma análise da nova situação mundial que foi criada: se ela servir para abrir um debate sobre esse tema crucial, este livro terá alcançado o seu objetivo”.

Com estas palavras termina a obra de Domenico Losurdo ora editada no país. E este prefácio não poderia começar de modo diverso senão afirmando: este livro serve ao debate, sim, muitíssimo.

A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra promove uma reflexão sobre a realidade mundial contemporânea do capitalismo e o imperialismo e é uma contribuição ao pensamento revolucionário classista próprio desse autor já consagrado no Brasil e no mundo.

É um libelo não ao feitio de acusação, mas de chamado crítico e generoso à esquerda nos países centrais do sistema capitalista, instando-a à tomada de consciência, à presença e responsabilidade, pois disto se trata: uma esquerda ausente no Ocidente liberal que se apresenta como patrono da “democracia” e dos “direitos humanos”, combate por vezes os efeitos do neoliberalismo, mas não de modo pleno o colonialismo, neocolonialismo e imperialismo..

Losurdo aponta para as “grandes divergências” no mundo atual, o entrelaçamento de dois processos entre si conflitivos: aquele dos países saídos da dominação colonial e neocolonial, empenhados na luta pelo desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo (que alcança sucessos importantes, caso da China e de outros), que tende a contrastar e restringir o processo que por alguns séculos reservou ao Ocidente uma posição de absoluta superioridade em relação ao restante do mundo; e aquele, simultâneo, em que nos países capitalistas avançados se abre um abismo, a “grande divergência” que separa do resto da população uma elite opulenta cada vez mais restrita.

Para o autor, se constituiu uma nova fase no confronto entre colonialismo e neocolonialismo, que põe em questão se terá caráter progressivo ou regressivo quanto à ordem mundial na atualidade. Aliás, por isso mesmo, o papel e perspectivas da China têm alguma centralidade no debate promovido por Losurdo, embora certamente não tão exclusiva quanto a resenha crítica que o livro mereceu na Itália por parte de Luciano Canfora, respondido por diversos outros autores como Diego Angelo Bertozzi, Domenico di Iasio, João Carlos da Graça, Paolo Ercolani e outros. Nesse debate, foi valorizado que o desaparecimento do “bloco oriental” deixou o capitalismo e o liberalismo político suficientemente desenfreados para obter as coisas absolutamente à sua maneira.

Nesse pano de fundo, a China e sua trajetória representa uma prova de fogo no debate crítico desta obra. Para o autor, parece ser já um senso comum consolidado na esquerda ocidental a condenação do chamado “socialismo com características chinesas”, o qual teria levado a China, no dizer do crítico Luciano Canfora, a “exatamente o oposto do que pretendia ser em meados do século 20”. Para Di Iasio, ainda nesse debate italiano, Losurdo tem uma interpretação coerente do atual desenvolvimento da China como “a segunda etapa da luta anticolonial”. E, como lembrado por Bertozzi, a crítica de Canfora aponta a incapacidade de a esquerda levar em conta o fato inconteste do renascimento nacional chinês, a reconquista da integridade territorial e soberania plena, pelo caminho do socialismo com características chinesas, condição que lhe permite resistir ao projeto do imperialismo norte-americano no mundo.

Losurdo alerta com isso para o estado de desorientação e confusão da esquerda ocidental. E estende a crítica a outros inúmeros aspectos da atualidade mundial, em particular quanto ao fato de ela dever lutar, sim, pela defesa do Estado social, mas sem promover ao mesmo tempo a difusão da filosofia e ideologia largamente funcionais ao neoliberalismo. Saberá a esquerda, pergunta ele, dar sinais de vida, especificamente nos EUA e Europa?

Uma esquerda ausente: a imagem me remete de imediato à metáfora poderosa de Paolo Sorrentino em A grande beleza, em que Jep Gambardella (o excelente ator Toni Servillo), irônico e ácido, numa cena onírica que se passa nas Termas de Caracalla, se vê diante de uma girafa que, no instante seguinte, já não mais está lá. Sim, uma girafa, no país que conheceu o maior partido de esquerda do Ocidente até os anos 90 do século 20. Onde está a girafa? Onde está a esquerda?

Quem conhece a obra de Losurdo sabe do poderoso combate que ele trava contra as ideias liberais de ontem e de hoje.

Dotado de bagagem teórica e amplo domínio dos fatos históricos, arguta capacidade em lidar com a história das ideias, ele é capaz de ir às raízes do pensamento liberal com a crítica implacável. O mais impressionante neste livro é o panorama em grandes traços históricos da luta da esquerda do século 19 até hoje, atualizado com uma multiplicidade de fatos empíricos da opressão capitalista tal como se configuraram após a guerra fria e a débâcle do socialismo, sob a forma de crises, guerras e sociedade do espetáculo.

Em oito capítulos, com 65 subtemas concatenados, da guerra fria à exportação do “livre mercado” e “democracia” pela força das armas, do colonialismo à luta de resistência das esquerdas políticas e sociais, do imperialismo de livre comércio e dos direitos humanos até o papel da rede internet e as formas culturais de dominação, desfilam pelo livro o papel dos EUA e Europa, a geopolítica, o papel da China e Rússia e as experiências sul-americanas.

São penetrantes as análises sobre as guerras militares e comunicacionais contemporâneas, o neocolonialismo econômico-tecnológico-judicial, o papel da ideologia liberal da plutocracia, os novos perigos de guerra no quadro mundial e a luta tenaz entre uma ordem mundial unipolar e multipolar. Desse modo, Losurdo arma a esquerda contra os ideólogos do liberalismo, denunciando cada desastre que ele provoca contra os trabalhadores, arrastando povos e nações inteiras à regressão civilizacional.

Com isso, ele compõe o cenário próprio para o pensar estratégico transformador do tempo atual. Como bom marxista e leninista que é, ele parte da luta de classes sob as diversas variantes e alcançando o universalismo de projeto político alternativo de sociedade, sem traços de positivismo e de abstrações idealizantes fora dos marcos das relações de classe e de forças, internas e externas.

A obra de Losurdo tem um fio condutor marcante que é a luta nacional como expressão da luta de classes contemporânea, sob a pauta da soberania nacional, a autodeterminação e o desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo, base para o atendimento das demandas democráticas e sociais de uma nova ordem social.

Assim, manejando as três vertentes entrelaçadas – democrática, social e nacional –, ele resgata a centralidade da questão nacional, dando continuidade ao eixo histórico da luta anticolonial e anti-imperialista e das revoluções socialistas do século 20, para confrontar a tendência principal desta época, a globalização neoliberal, o imperialismo, a unipolaridade, o monopólio da produção material e da produção intelectual, os poderes financeiros, midiáticos, culturais, militares, diplomáticos e políticos de que dispõe. A isso corresponde a luta pelo desenvolvimento soberano e por fazer dos Estados nacionais sob direção progressista uma força de contraste com essa ordem, como se processou na experiência sul-americana nestas primeiras décadas do século 21.

Por isso, seu chamado crítico é impiedoso: “(…) não possui nenhuma credibilidade uma profissão de fé democrática que não lute em primeiro lugar pela democratização das relações internacionais […] Infelizmente, à pretensão ‘universalista’ do imperialismo continua a dar crédito a esquerda ocidental que frequentemente apoia as ‘guerras humanitárias’ ou se revela incerta e hesitante em questioná-las”.

E, irônico, quando afirma, por exemplo, a “amarga verdade [de que,] se realizada prematura e ingenuamente, a democratização de um país pode significar o caminho livre para as manobras desestabilizadoras e golpistas e permitir o triunfo da ditadura planetária do imperialismo”. Ou então ao nomear de “cibertontos” aqueles que levam terrivelmente a sério a propaganda relativa à “espontaneidade” da internet, sem se dar conta da dimensão geopolítica da rede.

Ao leitor brasileiro, estas páginas têm sentido especial na atual conjuntura.

Neste momento está se consumando uma subversão institucional no Brasil. As manobras do consórcio político-jurídico-midiático constituído golpeiam a democracia e, com isso, as bases do projeto capaz de promover desenvolvimento autônomo e soberano, democratizar de fato as relações sociais, e reservar ao país papel altivo na luta por uma ordem mundial mais democrática.

Mais uma vez na história política brasileira, é a esquerda quem sustenta a causa democrática e denuncia o golpe na Constituição de 1988. Reitera, assim, o fundamento que tem a questão democrática numa estratégia revolucionária classista. Mas os fatos servem para alertar que não se pode fazer nenhuma cedência quanto ao fato de que a pretensa absolutização e a certeira manipulação da “democracia” sejam uma poderosa arma das forças conservadoras e reacionárias.

Trata-se aqui da vulgata liberal dominante, em nome da qual se acentua o papel conservador do Estado, o esvaziamento de seu verdadeiro papel, cujos fundamentos são capturados pelos poderes financeiros e corporativos, minado por bolsões do Estado ditos “autônomos” (em voga em nosso país, na “luta contra a corrupção” e na formulação de um abstrato e tíbio “republicanismo”) e pelas causas multiculturalistas, antinacionais e antipopulares. Como disse o professor Belluzzo, do que se trata é da retomada do poder formal para ajustá-lo ao poder real dos donos do poder (…), concentrado no capital financeiro e nos seus porta-vozes na grande mídia. É quando a lógica da finança globalizada avança no território outrora ocupado pelas opções da política democrática, a garantir interesses nacionais e populares.

Evidencia-se que a questão democrática desligada de projeto de nação independente tem se revelado campo fértil para ilusões sobre a luta de classes e o caráter de classe do Estado, por um lado, e, por outro, para a formação de uma nova direita promovendo aventuras neoliberais. A esquerda brasileira também está chamada a evidenciar e ultrapassar as contradições e limites da experiência destes treze anos e meio de governo até o momento, dando contribuições ao necessário balanço crítico da experiência de governos progressistas sul-americanos, cujo ciclo está sob poderosa contraofensiva reacionária liderada pelos EUA e associados.

Sem dúvida, as reflexões de Losurdo nesta obra estarão presentes nesse esforço dos brasileiros e dos latino-americanos.






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 Walter Sorrentino é médico, vice-presidente nacional do PCdoB e diretor da União Brasileira de Escritores


http://www.vermelho.org.br/noticia/283726-1
 Fonte: Blog do Sorrentino
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24 junho, 2016

“Stalin: história e crítica de uma lenda negra”. Um livro de Domenico Losurdo PDF Print E-mail Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo." Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia. Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava. Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor. Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo. Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema. Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História. Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio. A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio. A DEMONIZAÇÃO DE STALIN A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos. Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin. Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade. O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza. DA ESPERANÇA À REALIDADE Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil. Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz. O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena. Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou. Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica. O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”. A previsão foi rapidamente desmentida pela História. O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial. Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais. Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais. Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.” Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações. São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado. A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial. Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica. O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”. Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”. Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista? Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky. A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”. Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas. A OUTRA “GUERRA CIVIL” Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional. Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte. Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista. A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total. As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo. Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas. Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou. De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine. Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine. O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão. Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky. Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica. Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique. A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo. Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”. Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo. Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários. Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa. Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa. Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia. Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem. O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”. Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin. O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração. AS ORIGENS DO STALINISMO A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores. Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler. Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária. Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto. Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”. No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras. Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″. A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado. Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”. Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo. Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia? Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos. O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista. Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”. O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”. O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade. SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin. Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”. Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”. Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin. Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual. Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos. Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”. Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais. A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas. Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio. A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais. E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos. É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles. Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes. O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo. Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II. Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto. A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo. Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola. STALIN E OS JUDEUS A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin. A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”. Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola. Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz. O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão). Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”. Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS. Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana. Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.” Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”. Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético. Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito. A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos. “Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”. Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”. COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine. A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso. Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS. A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas. Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas. Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade. Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista. Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial. Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin. Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”. Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético. Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros: - A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste. - A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau. - O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações. - A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano. - O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana. - O extermínio total da população aborígene da Tasmânia. - A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria. - A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados. - O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos. - A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial. - E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial. Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”… Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”. Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”. Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS. Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura. Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX. Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”. Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin. A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica. A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin. Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana. A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão. A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia. Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas. Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos. Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina. Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa. Atualizado em 24.06.16

Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo."
Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia.
Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.
Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.
Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.
Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.
Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.
Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.
A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.
A DEMONIZAÇÃO DE STALIN
A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos.
Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin.
Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.
O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza.
DA ESPERANÇA À REALIDADE
Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.
Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.
O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena.
Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou.
Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica.
O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”.
A previsão foi rapidamente desmentida pela História.
O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial.
Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais.
Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais.
Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.”
Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações.
São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado.
A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial.
Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica.
O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”.
Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”.
Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista?
Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky.
A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”.
Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas.
A OUTRA “GUERRA CIVIL”
Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional.
Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte.
Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista.
A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total.
As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo.
Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas.
Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou.
De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine.
Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine.
O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão.
Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky.
Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica.
Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique.
A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo.
Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”.
Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo.
Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários.
Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa.
Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa.
Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia.
Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem.
O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”.
Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin.
O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração.
AS ORIGENS DO STALINISMO
A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores.
Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler.
Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária.
Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto.
Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”.
No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras.
Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″.
A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado.
Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”.
Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo.
Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia?
Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos.
O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista.
Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”.
O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”.
O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade.
SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG
Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin.
Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”.
Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”.
Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin.
Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual.
Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos.
Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”.
Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais.
A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas.
Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio.
A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais.
E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos.
É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles.
Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes.
O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo.
Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II.
Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto.
A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo.
Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola.
STALIN E OS JUDEUS
A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin.
A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”.
Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola.
Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz.
O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão).
Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”.
Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS.
Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana.
Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.”
Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”.
Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético.
Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito.
A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos.
“Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”.
Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”.
COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO
A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine.
A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso.
Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS.
A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas.
Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas.
Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade.
Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista.
Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial.
Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin.
Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”.
Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético.
Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros:
- A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste.
- A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau.
- O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações.
- A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano.
- O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana.
- O extermínio total da população aborígene da Tasmânia.
- A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria.
- A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados.
- O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos.
- A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial.
- E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA
Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial.
Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”…
Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”.
Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”.
Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS.
Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura.
Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX.
Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”.
Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin.
A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica.
A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin.
Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana.
A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão.
A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia.
Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas.
Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos.
Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina.
Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa.
Atualizado em 24.06.16
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04 abril, 2016

Carta aberta aos jornalistas franceses

Postado por forum21 em 28/mar/2016



Caros colegas,
Vivo e trabalho  em Paris há 15 anos, e como colaboradora da mídia brasileira (Carta Maior e Carta Capital), vejo com espanto a parcialidade que a imprensa francesa tem manifestado diante da situação política atual do Brasil, onde um golpe de Estado jurídico-midiático está em curso.
Pude ler artigos na imprensa portuguesa (Politico), na imprensa alemã (Der Spiegel) e na imprensa argentina (Pagina12), além dos excelentes artigos do jornalista americano Glenn Greenwald, na revista online The Intercept. Os jornais franceses (excetuando-se L’Humanité e Mediapart) não estão à altura de sua história e fazem uma cobertura parcial e superficial, limitando-se a seguir a storytelling da imprensa brasileira, que designou como inimigos para serem destruídos a presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.
Esperávamos do Le Monde e do Libération uma cobertura mais imparcial.
O artigo abaixo, em francês, informa em profundidade a evolução das manifestações de rua e o crescimento de uma direita que ultrapassou todos os limites. Aliados a uma imprensa majoritariamente de direita, segmentos da direita brasileira defendem o ódio e a destituição da presidente eleita, sem que se tenha provado nenhum delito para justificar o processo de impeachment.
http://www.cetri.be/Un-Tea-Party-tropical-La-montee-en?lang=fr

Abaixo pode ser encontrado o  link do jornal alemão Der Spiegel que relata com precisão  a crise política brasileira.
http://www.spiegel.de/politik/ausland/brasilien-hexenjagd-auf-lula-ein-kalter-putsch-kommentar-a-1083218.html
O filósofo Vladimir Safatle publicou na Folha de São Paulo um artigo que resume a percepção de toda a esquerda brasileira : um golpe de Estado está em marcha.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/03/1753928-um-golpe-e-nada-mais.shtml

A carta de solidariedade com o presidente Lula, uma iniciativa do Forum21, foi assinada por diversos intelectuais franceses entre os quais Etienne Balibar:
Alba Carosio (Universidade Central da Venezuela)
Angel Quintero Rivera (Universidad de Puerto Rico)
Aníbal Quijano (Sociólogo, Peru)
Arturo Escobar (Universidade da Carolina do Norte, EUA)
Atilio Borón (sociólogo argentino)
Baltazar Garzón (Juiz aposentado, Espanha)
Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal)
Carmen Beramendi (Diretora da FLACSO, Uruguai)
Daniel Filmus (Ex-ministro da Educação, Argentina)
Domenico Losurdo (Filósofo italiano)
Eduardo A. Rueda (Professor da Pontificia Universidad Javeriana, Colômbia)
Eduardo Rinesi (Ex-reitor da Universidade de General Sarmiento, Argentina)
Fernanda Saforcada (Diretora Académica do Clacso, Argentina).
Fernando Mayorga (Universidad Mayor de San Simón, Bolivia)
Florencia Saintout, (Universidade Nacional de La Plata, Argentina)
Gabriela Diker (Reitora da Universidad de General Sarmiento, Argentina)
Gerardo Caetano (Universidad de la República, Uruguai)
Horacio A. López. (Subdiretor Centro Cultural de la Cooperación, Argentina.)
Ignacio Ramonet (Jornalista, França)
Jorge Beinstein (Economista, Argentina)
Juan Carlos Monedero (Universidade Complutense, Espanha)
Julian Rebon (Membro do Comitê Diretivo do Clacso, Argentina)
Leonardo Padura (Escritor Cubano)
Leticia Salomón (Universidad Nacional Autónoma de Honduras)
Luciano Concheiro (Universidad Autónoma de México)
Mario Burkun (Economista, Argentina)
Nicolás Trotta (Reitor da UMET, Argentina)
Pablo Gentili (CLACSO, Argentina)
Pablo González Casanova (Universidad Nacional Autónoma do México)
Partito della Rifondazione Comunista (Partido italiano)
Pierre Laurent – Secretario Nacional do PCF e Presidente do Partido da esquerda Européia
Raúl Zaffaroni (Ex-juiz da Suprema Corte de Justiça, Argentina)
Rita Segato (Intelectual feminista, Argentina)
Suzy Castor (CRESFET, Haití)

Assina,
Leneide Duarte-Plon

 http://www.forum21.org.br/2016/03/28/carta-aberta-aos-jornalistas-franceses/
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26 fevereiro, 2016

Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra

Domenico Losurdo: Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra


25 de fevereiro de 2016
 Tradução de Marcos Aurélio Silva. Prof. dos cursos de graduação e pós-graduação em geografia da UFSC.


A China representa mesmo uma ameaça geopolítica para os Estados Unidos e os países que com ela fazem limite na região do Pacífico? Publicamos a seguir um excerto do livro de Domenico Losurdo, La Sinistra assente: crisi, società dello spettacolo, guerra (Carocci, 2014), que analisa algumas questões da assim chamada “ameaça chinesa”.

O pivô asiático*

O “pivô” é frequentemente apresentado no Ocidente como uma resposta à “ameaça” proveniente de Pequim. Não há dúvida que com a ascensão ou, mais exatamente, com o retorno da China, depois do fim do “século das humilhações”, e com o avanço do processo de maturação da República Popular, o quadro internacional está mudando de modo radical. Em março de 1949 o general estadunidense MacArthur podia constatar satisfeito: “agora o Pacífico tornou-se um lago Anglo-saxão” (Kissinger, 2011, p. 125). Dadas as relações de força existentes, os EUA podiam ter esperanças de bloquear com suas intervenções a chegada ao poder do partido comunista e de Mao Tsé-Tung; a esperança tornou-se rapidamente desilusão e em Washington, em meio a furiosas polêmicas, se desencadeava a caça ao responsável pela “perda” do grande país asiático.

Por Domenico Losurdo**

O pacífico não era mais em sentido estrito “um lago Anglo-saxão” mas, como sabemos, ainda ao cabo da Guerra Fria os Estados Unidos violavam sem dificuldade o espaço aéreo e marítimo chinês. Eram os anos em que a superpotência já solitária buscava consolidar e tornar permanente e inabalável a sua já clara superioridade militar mediante a Revolution in Military Affairs. Esta conhecia o seu batismo de fogo no curso da primeira guerra do Golfo: embora armado em medida não desprezível, o Iraque de Saddam Hussein sofria uma derrota rápida e irreparável. Era um sinal de alarme sobretudo para os países que há pouco se haviam impetuosamente liberado do jogo colonial.

Em Pequim, em junho de 1991, Jiang Zemin (2010, pp. 134, 136 e 591) exprimia a sua preocupação: “Se em todo o caso uma guerra mundial não é iminente, o mundo está bem longe de ser pacífico”; “particularmente preocupante é a Guerra do golfo”. “O papel da tecnologia militar tornou-se uma questão importante”: no que diz respeito à China, em certos setores do aparato militar “o gap se está agravando”. É um conceito reafirmado e melhor definido cinco anos depois: “a aplicação em larga escala de novas e sofisticadas tecnologias está mudando profundamente o mundo no plano não só social e econômico, mas também militar, e está introduzindo mudanças revolucionárias nesta área”.

A ausência da primeira revolução industrial e tecnológica tinha assinalado o início do “século das humilhações”; a ausência da revolução industrial, tecnológica e militar em curso levaria a uma repetição desta tragédia talvez em escala ainda maior. Neste quadro é que devem ser inseridos os esforços desenvolvidos pela China nos últimos anos para reduzir o seu atraso no plano militar.

Ameaça chinesa?

Argumento de fábula política no passado mais recente, a “ameaça chinesa” ganhou subitamente uma dimensão real e concreta em nossos dias? Damos a palavra a um estudioso estadunidense de origem chinesa, autor de um livro publicado por uma instituição de certo modo oficial do país guia do Ocidente (Strategic Studies Institute, U. S. Army War College). Pois bem, nesse estudo podemos ler que, segundo alguns analistas, os mísseis chineses poderiam “obrigar a Marinha estadunidense a operar a uma maior distância da costa [chinesa], ao menos na fase inicial do conflito” (Lai, 2011, p. 217). Sendo assim, se pode entender as amarguras de Washington pelo fato de que o Pacífico não é mais (na sua parte ocidental) “um lago Anglo-saxão”, aliás um “lago privado” (DYER, 2014, p. 2), ou não é mais assim tão fácil violar o espaço territorial, aéreo e marítimo do grande país asiático; e  todavia seria simplesmente temerário falar de “China Threat” ou do “perigo amarelo”! Atualmente, a marinha militar estadunidense, que goza de uma esmagadora superioridade, “opera a poucas milhas de distância de muitas das mais importantes cidades chinesas” (Dyer, 2014, p. 1). Se isso é sinônimo de “ameaça chinesa”, o que se deveria dizer de uma situação inversa, segundo a qual uma superior marinha militar chinesa tivesse sob controle e ameaça, a poucas milhas de distância, São Francisco e Nova Iorque? Na realidade, nas páginas do Foreign Affairs, o autor do artigo que já conhecemos sobre a capacidade alcançada pelos EUA de lançar um primeiro golpe nuclear, sublinha satisfeito “o passo glacial da modernização das forças nucleares chinesas”: portanto, “as probabilidades de que Pequim adquira no próximo decênio um poder nuclear dissuasor capaz de sobreviver são mínimas […] Contra a China os Estados Unidos têm hoje uma capacidade de lançar o primeiro ataque e estarão em condições de manter esta capacidade ainda por um decênio ou mais” (Lieber, Press, 2006, pp. 43 e 49-50).

Mas como explicar então os conflitos em torno de algumas ilhas localizadas no Mar Chinês Oriental e no Mar Chinês Meridional? Retomamos a leitura do estudo publicado pelo Strategic Studies Institute: “A China tem uma longa história de pescadores que pescavam nestas águas assim como de reivindicações oficiais destas ilhas. Presumivelmente, os chineses primeiro deram a elas um nome, as utilizaram como pontos de referência para a navegação, tentaram designá-las como território chinês colocando-as sob jurisdição das províncias costeiras meridionais e definindo-as como tais sobre um mapa. Por séculos os chineses deram como certo que este certificado histórico (historical reach) estabelecia a sua propriedade sobre estas ilhas e suas águas circundantes” (Lai, 2011, p. 127).

Intervieram depois o declínio da China e o expansionismo colonial: “nos anos 30 os franceses tomaram posse das ilhas Paracelso (Xisha em chinês) e Spratly (Nansha em chinês) de modo a expandir o alcance do seu protetorado colonial”, enquanto “durante a segunda guerra mundial o Japão assume o controle de todas as ilhas do Mar Chinês Meridional” (Lai, 2011, p. 128). Com a Declaração do Cairo (1943) e a proclamação de Potsdam (1945) o Japão se empenhava a restituir todos os territórios que “havia roubado”. Mas, depois da eclosão da Guerra Fria, à Conferencia de Paz de Paz de São Francisco não foram convidadas nem a República popular chinesa nem a República chinesa (Taiwan); o Japão, aliado aos EUA, podia assim reter as ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses).

Elas deveriam ter sido restituídas, mas nas novas circunstâncias eram de grande utilidade, funcionando como uma pistola apontada contra o inimigo saído de uma grande revolução anticolonial e inspirador na Ásia de uma ulterior onda de revoluções anticoloniais. Dava prova de precaução o primeiro ministro Zhou Enlai, que às vésperas da conferência condenava os EUA pelo fato “de privar a China do seu direito a recuperar os territórios perdidos” e “de lançar um tratado para a guerra, não para a paz, no Pacífico Ocidental” (Lai, 2011, p. 129).

Vale a pena notar que em relação às ilhas contestadas a República popular chinesa não assume uma posição diversa daquela da República da China (Taiwan). Aliás, esta última tem dado prova de maior firmeza, a julgar pela fonte estadunidense mais vezes citada: “Em 1946, o governo da República da China enviou navios de guerra para ‘recuperar’ as ilhas Paracelso e Spratly. Em um mundo que enfatizava o controle de fato mais que as reivindicações históricas, a China teria podido manter ali as suas tropas a fim de exercer o controle de fato sobre aqueles territórios e afirmar resoluta e incontestavelmente a posse daquelas ilhas. Por ter deixado de fazer isso e ter negligenciado por decênios as ilhas do Mar Chinês Meridional os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) devem eles próprios se penitenciar (…) Os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) gastaram todo o seu tempo e todas as suas energias jogando os chineses uns contra os outros em ‘perpétuas revoluções e lutas de classe’, enquanto deixavam abandonados os territórios contestados em mar aberto” (Lai, 2011, p. 130).

Pequim x Tóquio

Particularmente intratável é o conflito entre China e Japão, mas é este último a tê-lo provocado. Essa verdade emerge das próprias análises dos jornalistas e estudiosos ocidentais: é “razoável” a reivindicação avançada por Pequim acerca da ilha Diaoyu (ou Senkaku); e se trata de uma reivindicação levada adiante por toda a nação chinesa, que aliás reprova os seus governantes por assumirem um comportamento “muito conciliador e mole” (Kristof, 2013). Não obstante isso – sublinha um sociólogo britânico – a China se contentaria em definir como “contestada” a propriedade daquelas ilhas, postergando a solução do problema às futuras gerações.  Se trata de uma proposta já avançada em seu tempo por Zhou Enlai e inicialmemte aceita pelo Japão, que agora ao contrário a rejeita secamente. É uma “loucura” que se explica com a onda chauvinista que sacode o país (Dore, 2013). Trata-se de uma nação – vale acrescentar – que tem dificuldade de fazer as contas com o seu passado. Em 1965, enquanto se desencadeava a agressão contra o Vietnã, o primeiro ministro japonês Eisaku Sato solicitava ao secretário estadunidense para a defesa, Robert McNamara, que fizesse recurso à arma nuclear no caso de guerra contra a China, culpada por ajudar o Vietnã (International Herald Tribunne 2008). Nos nossos dia, encorajado pelo apoio dos EUA e pelo “pivô” antichinês por ele encenado, o governo japonês se obstina em um negacionismo que, em razão do seu radicalismo, termina por inquietar até mesmo Washington. De qualquer modo, em tudo pretensiosa se revela a palavra de ordem da “China Threat” (ou do “perigo amarelo”): na realidade, ela é uma completa deformação da verdade. O fato é que não podemos considerar definitivamente concluída a luta de liberação nacional que presidiu o nascimento da República popular chinesa. Não se trata só de Taiwan. Ecoam insistentes as vozes que preveem ou desejam para o grande país asiático um fim análogo àquele que sofreu a União Soviética ou a Iugoslávia: “uma nova fragmentação da Cinha é o desfecho mais provável” – anunciava um livro de sucesso publicado em Nova Iorque no ano mesmo da implosão do país derrotado no curso da Guerra Fria (Friedman, Lebard, 1991).

A hipótese da desintegração

A partir de então, nos EUA e nos países que com ele formam aliança, se multiplicaram as tomadas de posição de analistas, estrategistas, políticos, homens de Estado que previam ou invocavam a “fragmentação do colosso chinês”, o seu desmembramento em “sete chinas” ou em “muitas Taiwans”. O ideal seria proceder a uma “desintegração do interior” (desintegration from within). Em todo caso Washington é chamada a “afrontar de maneira mais coerente a futura fragmentação da China”. Estamos em presença de uma campanha que se move em várias frentes: dá o que pensar o prêmio conferido pelo Los Angeles Times a um livro que invoca o retorno à China da dinastia Ming (que teve o seu fim em 1644), com a exclusão consequentemente do Tibet, de Xinjiang, da Mongólia interior e da Manchúria. Mas, obviamente, o autor aqui citado tem em mira só a República popular chinesa: assim, junto a séculos de história, deveria ser posta em discussão uma parte bastante considerável (mais ou menos a metade) do seu atual território. Ainda além vai um outro livro aclamado no Ocidente (Ross Terril, 2003, The New Chinese Empire And What It Means for the United States): se deve contrastar o governo de Pequim também a propósito da “invenção de uma única etnia de chineses Han”; na realidade no seu interior subsistem notáveis diferenças no que diz respeito a esta mesma língua, e portanto…

Às vezes, o desejo de se livrar de um potencial concorrente prefere se camuflar de previsão histórica: “Alguns experts têm mesmo profetizado o repetir-se de um daqueles ciclos históricos em que se assistiu ao desmembramento do país, que faria desvanecer os sonhos de grandeza da China” (Brzezinski, 1998, p. 218).

Qualquer que seja a linguagem utilizada, estamos diante de um objetivo perseguido independentemente da política posta em prática pelo governo de Pequim no plano nacional e internacional: em 1999, o ano do bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um expoente de relevo da administração estadunidense declarava que, só por sua “dimensão”, a China constituía um problema ou uma potencial ameaça (Richardson, 1999). Não admira então que, ao receber o Prêmio pela Paz dos livreiros alemães, o “dissidente” chinês Liao Yiwu tenha pronunciado um discurso cuja palavra de ordem, em relação ao seu país, era: “Este Império deve acabar em pedaços” (auseinanderbrechen) (Köckritz, 2012). Como se vê, o desmembramento da China, uma vez alcançado, seria considerado uma contribuição à causa da paz! Resta o fato que é o país para o qual se projeta, ou se invoca ou se sonha o desmembramento, aquele que está realmente sendo ameaçado.


* Excerto publicado no site “Il Caffè Geopolitico”, 5 de fevereiro de 2016. O livro de Domenico Losurdo onde estão publicadas originalmente estas páginas (La Sinistra Assente: crisi, società dello spettacolo, guerra) está sendo vertido para o português, sob os cuidados de outro tradutor, pela editora Anita Garibaldi em parceria com a Fundação Maurício Grabois, com previsão de lançamento ainda para este ano.
** Domenico Losurdo é prof. emérito de História da Filosofia na Universidade de Urbino (Italia).

Referências
Brzezinski, Z. K. (1998). La grande sacchiera. Longanesi, Milano.
Dyer, G. (2014) US vs. china: is this the new cold war, in Financial Times, 22-23 febbraio, pp. 1-2.
Dore, R. (2013) Isole conteste, ecco perchè Tokyo sbaglia, in La Lettura, suplemento al “Corriere della Sera”, 8 dicembre., p. 5.
Friedman, G. Lebard, M. (1991) The Coming War with Japan. St. Martin Press, New York.
Kinssinger, H. (2011) On China. The Peguim Press, New York.
Kristof, N. D. (2011) Bahrain pulls a Qaddafi, in: International Herald Tribune, 18 marzo, p. 7.
Köcritz, A. (2012) Zwei gute Störer, in Die Zeit, 14 marzo, p. 53.
Lai, D. (2011) The Unite States and China in Power Transition. Strategic Studies Institute, Carlisle, p. 9.
Lieber, K. A., Press, D. G. (2006) The Rise of U. S. Nuclear primacy in “Foreign Affairs”, marzo-aprile, pp. 42-54.
Richardson, M. (1999) Asia Looks to Zhu for Sing of Backing Off On Spratlys, in: International Herald Tribune, 22 novembre, p. 5
Zemin, J. (2010) Selected Works, I, Foreign Languages Press, Beinjing

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